Universo Cosplay
Entrevistas
Destaque Cosplay: Fernando "Ferio" Siqueira | Destaque Cosplay: Fernando "Ferio" Siqueira |
| Escrito por Gabriel Dias | |||||
| 05-Jan-2009 | |||||
Página 2 de 3 CB – O Brasil ganhou WCS duas vezes, ganhou o CLC e só não ganhou a YCC internacional por causa das penalidades. Dizer que o nível aqui é fortíssimo é redundância. Por que isso? O brasileiro é competitivo? É competência nossa acima dos demais ou os outros que são fracos mesmo? Talvez nós levamos demasiadamente à sério algo que nos outros países é um hobby apenas? Lido diariamente na organização e coordenação de eventos e concursos de cosplay em diversos países latino-americanos. Mas a empolgação e a vontade de ir além e ser o melhor eu só sinto fortemente nos brasileiros. Acredito que por isso o Brasil tem ganhado tanto destaque nos últimos anos e que tem todo o potencial de ser uma super potência em qualquer meio, em qualquer lugar. Sem gostar de usar clichês mas já usando, o melhor do Brasil é o brasileiro. CB - Na entrevista da Giorgia, ela menciona que um dos motivos que a levou parar de competir foi para evitar fofocas. Aqui no Brasil, pelo alto grau de competitividade é natural que fofocas e outras coisas negativas surjam. Isso tem também em outros países (do seu conhecimento), mesmo que a "empolgação e vontade de ir além" não seja tão grande? Ferio – Boatos, fofocas e similares existem em qualquer lugar, em qualquer país. Isso não só existe em outros países como na verdade nunca conheci um país que não tivesse. Infelizmente é algo intrínseco ao ser humano, a vontade de se destacar, de ser superior, mesmo que para isso tenha que dar uma rasteira ou jogar sujeira no trabalho dos outros. Isso também pode ser visto em apresentações e em eventos onde teoricamente não deveria existir a competividade. Infelizmente é algo que foge do alcance de organizadores e coordenadores, pois a educação, ética e a moral vêm de casa. Ferio – Muita gente pode não concordar comigo, mas eu acredito que mulheres têm mais facilidade para fazer cosplay e ganhar destaque que homens. É algo natural. A maior parte dos personagens mais populares, seja de filmes, anime, quadrinhos, etc., em geral tem traços mais delicados. Isso pode ser visto com mais facilidade nos animes e video-games, onde abundam os personagens andróginos (homens que parecem mulheres). Por isso é natural que uma mulher tenha mais facilidade em escolher personagens e fazer um cosplay que fique parecido. Mas, obviamente, estou generalizando. Também existe um fator cultural. Mulheres estão mais acostumadas a lidar com visual, tecidos, perucas e outros acessórios. Já os homens são educados a terem outras prioridades, então fazer cosplay é algo fora do "padrão" de nossa educação, quanto que para uma mulher é algo mais natural. Por isso eu acredito que as mulheres têm ganhado tanto destaque nos últimos anos. Elas estão aprendendo a usar todos os recursos que dispõem para fazer cosplays e apresentações. Mas isso não significa que os homens estejam destinados a terem desvantagem, eles também têm suas vantagens, só precisam aprender a usá-las. CB – Mas até certo período os homens que dominavam, principalmente quando começaram fazer cosplays de armaduras. Eles "acomodaram"? Ferio – Eles não se acomodaram, mas, falando especificamente de cosplays de armaduras, convenhamos que fazer armaduras é algo bem complicado que requer muito tempo e dedicação. Sem falar de capital e espaço disponível para trabalhar. Eu acho que cosplayers em geral que gostam desse tipo de cosplay desanimaram com o passar do tempo, mas não acho que seja uma tendência. Existem excelentes cosplayers que hoje em dia investem em armaduras e fazem bons cosplays ganhando um merecido destaque. CB – Então acha que os meninos estão se "reinventando", se "readaptando", depois do hype das armaduras? Enquanto parece que as meninas "acharam seu caminho"? Ferio – É mais ou menos isso. Os homens estão tendo que se reiventar e pensar em outras soluções e outros tipos de cosplays para conseguir se destacar. Já para as mulheres existe um caminho mais claro por onde seguir, mas isso não significa que seja mais fácil ou que precisem segui-lo. O meio está em constante mudança e sempre é possível colocar algo novo no palco ou reinventar algo que já existia. Por isso dividir entre homens e mulheres é generalizar demais. Como já vimos, mulheres conseguem fazer cosplays tipicamente masculinos, do mesmo jeito que um homem também consegue fazer cosplays mais delicados, vistosos e femininos. Ferio – A visão do Brasil não mudou tanto assim. Quando se fala de cosplay, eles logo mencionam Yuki, Vingaard, Mônica Somenzari, Mauricio Somenzari e recentemente têm mencionado também a Jéssica Campos e o Gabriel Niemietz. A mudança que eu tenho observado é que cada vez mais existe um interesse de conhecerem o Brasil. Aos poucos, os grandes eventos do Brasil e seus concursos estão chegando aos seus ouvidos, então a visão aos poucos está mudando para a imagem de que no Brasil as coisas são bem feitas. Espero que nunca os decepcionemos. Eu estou fazendo minha parte. CB – Sabe se aquele entrevero entre Petra e Aino com uma dupla mexicana chegou aos ouvidos internacionais ou ficou entre Brasil e México, só? Ferio – Pelo que fiquei sabendo não teve nenhuma repercussão negativa e nem chegou a ser conhecido. Passou quase desapercebido a meu ver. CB – E estando na Venezuela, no ambiente otaku estrangeiro em si, qual o grau de adoração/admiração que eles têm pelo pessoal daqui? Ferio – O pessoal tem um grande respeito pelo Brasil. Eles veem o Brasil como um modelo e referência para a América Latina. Era notório como nos tratavam com muito respeito e prestavam atenção em tudo o que falávamos. Parecida à visão que nós temos dos japoneses e dos americanos. Precisamos ter um pouco de cuidado com isso. Eu jamais gostaria que passássemos uma imagem errada, como por exemplo, autoritária ou arrogante. CB – Até agora acha que conseguimos passar uma imagem simpática, de quem quer compartilhar o que já passou, aprendeu? Ferio – Sim, eu acredito que até o momento estamos passando a imagem certa. Não estamos só sendo uma referência, mas um integrador da comunidade otaku Latino-Americana. Através do Brasil, cosplayers, organizadores e otakus de diversos países estão se conhecendo e trocando informações e experiências. Se Deus quiser isso não vai se limitar ao continente americano e alcançaremos melhores parcerias e acordos com outros continentes, como a Europa e a Ásia. CB – Em relação a organização de eventos, o que acha que falta ainda se formos comparar com os grandes eventos lá fora que sempre parecem melhor organizados, mais bonitinhos, mais arrumados... Ferio – Bem, primeiro vale lembrar que tudo que é de fora as vezes parece melhor, o que raramente é verdade. Acredito que grandes eventos como o Comiket no Japão ou a Anime Expo em Los Angeles (EUA) têm grandes diferencias e são melhores que os eventos brasileiros em vários quesitos. Mas eles também não são perfeitos e também sofrem com diversos problemas como os eventos brasileiros. O que eu acho que falta no Brasil é conhecer a realidade lá fora e aprender com isso. O brasileiro é muito criativo e tem a capacidade de criar coisas totalmente novas. Não é à toa que os eventos e concursos no Brasil não se parecem muito com os de outros países, e muitas vezes somos usados como referência. E não só na América Latina, como também já fomos usados como referência em eventos no Japão e nos Estados Unidos. O que significa que não temos nada do que invejar de outros países, mas também não podemos nos acomodar. Por isso eu afirmo que devemos aprender mais sobre a realidade lá fora, ver no que eles são melhores que nós e aprender com isso. CB – O que me leva à próxima pergunta: já quebramos a “barreira” dos cantores internacionais, enquanto lá fora é comum trazer cosplayers, mangakás, seiyuus e afins. Esse grupo nunca vem para cá por falta de interesse dos organizadores ou o que? Ferio – Isso é por causa do tipo do público brasileiro. O típico "otaku" brasileiro é muito diferente do mexicano ou dos Estados Unidos. Aqui, em média, os ingressos são muito mais baratos e os eventos são orientados a um público de diversas faixas sociais. No estrangeiro, especialmente no norte, eles são orientados mais para a classe média alta. Isso faz com que o tipo de atrações esperada pelo público seja diferente. Cantores japoneses e bandas fazem mais sucesso aqui que lá, enquanto que por aqui dubladores não trazem tanto retorno. Não estou entrando na questão de se é melhor ou pior, mas que é diferente. No Brasil já criamos uma cultura de ver shows de cantores e bandas, e aos poucos estamos levando isso a outros países do continente. Mas isso, em contrapartida, também dificulta trazer outros tipos de atrações que, por mais que venham também do Japão, são totalmente diferentes, como dubladores, desenhistas, mangakas e afins. Ainda tem a questão de rentabilidade. Um cantor que vem ao Brasil pode fazer diversos shows para milhares de pessoas. Um mangaká no máximo fará uma palestra ou sessão de autógrafos para algumas centenas. Não tenho dúvidas que os organizadores estão pensando em trazer outro tipo de atrações internacionais, até porque o mercado já está um pouco saturado de cantores e bandas, mas para isso vai ser preciso mudar um pouco a cultura do público. Felizmente, isso já está acontecendo. Por exemplo, no último Ressaca Friends tivemos peças de teatro no evento (nada relacionado ao teatro cosplay) com um bom sucesso. Na Dreams também teremos peças de teatro. O que já mostra uma clara mudança dessa crença de que "em eventos só tem cantor japonês e cosplay". Eu realmente espero que sigamos por esse caminho, o de uma diversificação das atrações e atividades dos eventos e que todas as empresas e organizadores do Brasil sigam esse caminho para que o público tenha cada vez mais opções dentro dos eventos. Ferio – O rumo que as coisas tomaram (especialmente nos últimos três anos) foi totalmente inesperado. Eu teria dificuldade em acreditar que tudo aconteceria desta forma até chegarmos a este ponto. Mas a vida é assim, totalmente imprevisível. Então, apesar de certa incredulidade, há 12 anos eu não acreditaria muito mas também não descartaria a possibilidade. CB – Às vezes eu passo na frente da Gazeta e penso “E pensar que aqui já coube um Animecon”. Não é monstruoso como tudo cresceu? Na época parecia que as coisas não iam para frente (pensar em trazer artistas internacionais era motivo de chacota), mas pensando bem, nem parece que já tem 11 anos de eventos, parece que tudo começou ontem, não? Ferio – Muita coisa mudou, muita coisa surprendeu e se tornou gigante. Mas tem coisas que jamais mudam. Todo evento, por menor ou maior que seja, tem sempre os mesmos fatores, um público parecido. Os concursos de cosplay sempre serão subjetivos. Sempre vai ter picuinhas e atritos. Sempre teremos amigos, cosplayers e companheiros que, apesar de tudo, sempre continuarão ao nosso lado. CB - Mesmo naquela época, de poucas pessoas e que os prêmio dos concursos eram um mangá velho, já havia picuinha? Ferio – Sim, eu lembro claramente. Infelizmente é o tipo de coisa que sempre vai existir enquanto as pessoas derem tanto valor ao seu ego. CB - Ter esse tipo de conhecimento serve para não entrar naquela (muitas vezes cansativa) discussão de "antes era melhor que hoje", não? Ferio – Eu nunca acreditei nesse ditado. As coisas sempre são diferentes, mas nunca melhores ou piores. A realidade é do jeito que a gente quer que seja. Na maioria dos casos, a pessoa que afirma que antes era melhor normalmente é aquela que não conseguiu se adaptar às mudanças ou acompanhá-las. |
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| Atualizado em ( 05-Jan-2009 ) | |||||
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