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Quem é Giorgia Vecchini?
Italiana de Vigasio (cidade a poucos quilômetros de Verona, na região de Veneto, no norte da "bota"), que desde criança já gostava de desenhar, cantar as músicas-tema de seus desenhos favoritos, pensar em roteiros e histórias, etc. Ainda criança, foi “contaminada” pelos animes que passavam à epoca na televisão (década de 80), querendo agir como seus personagens (inclusive, Giorgia cita em seu site que o anime “Glass No Kamen” a influenciou de modo que reflete até hoje, através da sua paixão por teatro). Como podem perceber, virar cosplayer foi algo natural para ela.
A cosplayer:
Extra-oficialmente, por assim dizer, o primeiro cosplay de Giorgia foi aos dois anos de idade, com uma roupinha de Heidi (anime homônimo).
Oficialmente, ela se iniciou no hobby em 1997, com um cosplay de Sailor Marte. Daí para frente, como todos os top-cosplayers, não parou mais, com cerca de 30 cosplays já feitos.
O seu ápice foi em 2005, quando foi representar a Itália no WCS 2005 (em parceria com Francesca Dani, Elena e Emilia –naquele ano o WCS foi numa fórmula diferente da atual), e saiu de lá com o título de campeã mundial e melhor cosplayer individual.
Atualmente não participa mais de competições, mas continua frequentando eventos, e, como acontece com todos que ganham o WCS, recebe convites de muitas partes do mundo. E ela já avisou: gostaria de conhecer o Brasil!
Lista de alguns dos cosplays já feitos:
Sailor Marte (Sailor Moon) – 1997
Yohko (Devil Hunter Yohko) – 1998
Witchblade (Witchblade) – 2002
Alcion (Guerreiras Mágicas Rayearth) – 2003
Zakuro (Tokyo Mew Mew) – 2004
Mai Shiranui (The King Of Fighters) – 2005
Arpia Silen (Devilman) – 2005
Pandora (Saint Seiya) – 2006
Fujiko (Lupin III) – 2007
Kasumi (Dead Or Alive) – 2008
Mais cosplays aqui!
Agora, vamos à entrevista:
CB – Visitando seu site, não sei por que, fiquei com a impressão que você realmente gosta de rosa... (risos)
Bom, brincadeiras à parte, isso reflete a sua personalidade como alguém que é feliz, que mantém uma “criança interior”, porém sem ser infantil?
Giorgia – (risos) Meu site é lilás, não rosa.
Bom, apesar de ser uma das minhas cores favoritas, agora está um pouco desatualizado e reflete apenas uma parte de quem eu era há quatro, cinco anos.
Estamos sob reestilização e espero ter uma nova versão [do site] online em breve.
CB – Falando sobre essa “criança interior”, você fez seu primeiro cosplay com dois anos de idade. E o que parecia ser uma “coisa de criança” (seu gosto por desenhos em geral) evoluiu em cosplay e eventos de anime. Hoje em dia seus pais ajudam com suas fantasias, mas eles sempre te ajudaram?
Já aconteceu de eles dizerem “pare de fazer essa coisa de criança”, “está na hora de agir como uma adulta”, etc. ?
Giorgia – Normalmente eles me ajudam sempre que preciso, mas conforme o tempo foi passando eu precisei aprender a me virar sozinha cada vez mais.
Eles têm noção de que cosplay é um hobby criativo, mas que consome bastante tempo, e gostariam que eu usasse esse tempo mais para estudar ou trabalhar.
CB – Você também diz que gostaria de ter feito a Escola de Artes, mas acabou indo para o Instituto Clássico. Não pensou em fazer Artes Cênicas? Ou talvez seguir na carreira esportiva como atleta profissional?
Giorgia – Alguns problemas de saúde [hérnia de disco] evitaram que eu continuasse numa carreira esportiva mais séria.
Quanto à parte artística, a cidade onde eu moro não possui faculdades ou universidades dedicadas [para a área de artes], então eu teria que me mudar para cidades maiores, e meus pais não tinham recursos financeiros para me permitirem fazer isso.
Daí eu tentei fazer todos os cursos que pude como de maquiagem, teatro ou canto.
CB – Você é fã do calcio? Torcedora do Chievo?
Giorgia – Eu venho de uma família de torcedores da Juventus, mas mesmo que eu torça para os dois times da minha cidade, prefiro acompanhar esportes diferentes, como ginástica rítmica ou vôlei.
CB – Ainda sobre sua vida pessoal, há um assunto que você “pula”, que é sua vida amorosa. Tem tantas pessoas assim perguntando sobre isso, que você deixa claro na sua biografia que isso é um assunto que não quer falar?
Giorgia – Isso que você disse. Prefiro não expor online a minha vida pessoal.
CB – De volta ao cosplay agora. Uma coisa que chamou a minha atenção, além da beleza dos seus cosplays – e da cosplayer – é que seus ensaios fotográficos são muito bem feitos. Há alguém em especial (um amigo, um parente, um dos seus gatos...) atrás das câmeras ou você contrata um fotógrafo que esteja disponível?
Giorgia – Inicialmente, meu cunhado era meu fotógrafo, mas depois encontrei outros fotógrafos profissionais, com os quais eu trabalho agora.
Na verdade, muitas das sessões fotográficas estão sendo refeitas do início, e muitas outras virão em seguida.
As atualizações não são muitas porque nós gostamos de fazer a coisa da maneira certa e fora do estúdio, em alguma locação que possa valorizar as fantasias que eu visto.
CB – Agora há uma questão que já devem ter te perguntado milhões de vezes, mas que eu preciso fazer de qualquer jeito: você e a Francesca Dani são amigas, colegas, você “respeita o trabalho dela” ou prefere não tocar no assunto?
Giorgia – Tive o prazer de encontrar a Francesca durante o WCS 2005 [do qual ambas fizeram parte] e mantemos contato e uma boa relação desde então.
Por que, há alguma fofoca sobre nossa relação? (risos)
CB – A Itália é, até onde eu saiba, o primeiro país fora do Japão a televisionar Sailor Moon, então eu sei que anime e mangá não é algo novo por aí. Mas eles são tratados normalmente, como qualquer outro tipo de animação e quadrinhos, ou as pessoas os olham como algo “exótico”, na melhor das hipóteses?
Giorgia – Tivemos duas chamadas “invasões”.
A primeira foi no final da década de 70 e durou até meados dos anos 80, quando centenas de animes como Heidi, Grendizer, Creamy e Gundam tomaram conta das TVs locais e da nacional. Nesse período, houve um grande falatório em jornais e revistas, inclusive no Parlamento, sobre quão violento esses desenhos eram.
Então tivemos a segunda invasão durante os anos 90, quando começaram a ser publicados mangás e animes aparecerem em locadoras e lojas.
Isso levou anime e mangá a serem mais divulgados, e o “efeito nostálgico” fez alguns deles aparecerem em adesivos de pára-choques, camisetas, piadas de comediantes e por aí vai.
De qualquer forma, aqueles que não são considerados “populares” ainda são vistos como estranhos. Além disso, sempre há muita confusão sobre o que é o que e quem é quem, que reflete no cosplay: quando as pessoas tentam reconhecer a fantasia que alguém está vestindo, normalmente tendem a cair no mesmo grupo de nomes que incluem, por exemplo, Sailor Moon (para qualquer heroína), Power Rangers (qualquer herói mascarado) ou X-Men (qualquer outro herói que usa um uniforme).
CB – E os cosplayers, como são tratados pela mídia e imprensa?
Giorgia – Com altos e baixos. Às vezes os cosplayers são vistos como pessoas estranhas vestindo fantasias esquisitas, e às vezes, como artistas alternativos.
CB – Das fotos que eu vi no seu site, os cosplayers daí parecem muito bons! O hobby é bem espalhado e desenvolvido pelo país todo ou há regiões em que está começando?
Giorgia – Pode-se dizer que os cosplayers aqui reúnem-se onde ocorrem os maiores eventos (Roma, Milão, Lucca [província na região da Toscana, cuja capital é Florença]), mas apesar de algumas regiões mais isoladas do sul da Itália, ou nas regiões montanhosas do norte, os cosplayers estão bem espalhados pelo país, inclusive nas ilhas [Sardenha e Sicília, por exemplo].
CB – Quais e onde são os maiores eventos na Itália?
Giorgia – O maior é o Lucca Comics&Games. Ele ocorre nas ruas da cidade no final de outubro, que hoje em dia também quer dizer Halloween na Itália, então é bem divertido andar pela cidade com cosplay no meio das pessoas “normais”.
A última edição contou com 130 mil pessoas durante os quatro dias, o que é loucura se você pensar que Lucca tem uma população de pouco mais de 80 mil habitantes.
Daí temos a Romics, que é em Roma no início de outubro, e tem a seletiva italiana para o WCS.
Finalmente, temos o Cartoomics, em Milão no final de março, que é o maior evento do norte da Itália, enquanto o Comicon, que ocorre no castelo de Sant’Elmo em Nápoles, no final de abril, é o maior evento do sul da Itália.
CB – Pode ser bobo perguntar isso, já que você ganhou um WCS, mas geralmente você gosta de participar dos concursos de cosplay? Ou o WCS foi uma exceção? Pergunto isso pois uma outra cosplayer famosa (Lindze) disse não gostar de concursos.
Giorgia – A parte de interpretação é muito importante para mim, mas após a vitória no WCS decidi não competir mais em qualquer evento italiano para evitar que fofocas sejam espalhadas após as minhas apresentações.
Agora eu apenas fico de convidada, membro de júri e apresentadora e/ou organizadora de concursos.
CB – Ao contrário de muitos outros cosplayers que têm websites pessoais, você tem uma seção no seu site que contém milhares de fotos de muitos eventos daí. É uma atitude muito legal, já que ajuda a divulgar o hobby.
A idéia de ter um espaço para “cobertura” foi sua ou alguém que sugeriu? Conta com a ajuda de muitas pessoas?
Giorgia – Quando eu comecei meu site, não havia qualquer outro portal italiano de cosplay, fazendo uma cobertura de 360°, e já que eu frequentava muitos dos eventos, veio naturalmente o pensamento de fazer uma cobertura deles.
Com certeza meu site hospeda o maior arquivo fotográfico do cenário cosplay italiano.
Ano após ano ele tem crescido tanto que, no futuro, para evitar qualquer confusão, terei que separar o meu site em duas partes: uma sobre mim mesma e outra dizendo respeito à comunidade.
Além de mim, há mais duas pessoas tomando conta do site: Petra, que é a minha webmistress, e Roberto que é o responsável por administrar o fórum e o código PHP secundário.
Claro que não posso deixar de mencionar os vários fotógrafos que me ajudam com as sessões fotográficas.
CB – Você esteve em todos esses eventos? Deve ter viajado bastante!
Giorgia – Eu estive na maioria deles, digamos que uns 90%. Os outros foram cobertos por aqueles meus amigos que são fotógrafos, ou por membros das comunidades que se reúnem no meu site.
CB – Além de “ser meu personagem favorito por um dia”, que outros sonhos o cosplay já te ajudou a realizar?
Giorgia – Bom, o cosplay fez um sonho muito maior tornar-se realidade. Na verdade, permitiu-me ir ao Japão visitar os muitos lugares que eu tinha, até então apenas sonhado em visitar, e também me permitiu encontrar muitos dos mitos da animação, como Leiji Matsumoto, Go Nagai, Monkey Punch e Yumiko Igarashi.
Além disso, pude viajar ao redor do mundo, conhecer muitas pessoas legais, com as quais compartilhamos os mesmos interesses.
CB – De todas as viagens que você já fez, qual foi a de que mais gostou? Por quê?
Giorgia – Foi, com certeza, a primeira vez que fui ao México (naquela ocasião, fui à Cidade do México e a Guadalajara).
Os organizadores foram muito gentis e amigáveis, e os fãs me recepcionaram de uma maneira muito calorosa; eu não esperava ter tanto sucesso num lugar tão distante.
Tudo foi muito mágico.
CB – Conte-nos algum "causo" engraçado/curioso/diferente que aconteceu em alguma de suas viagens.
Giorgia – As coisas mais divertidas são sempre os presentes que eu recebo dos fãs.
Do México eu trouxe um relógio engraçado em forma de frigideira, que, na parte interna, tem a forma de uma fatia de melancia. Eles sabiam que eu realmente amo melancia (sandía, lá) e eu adorei demais.
E no Japão eu tenho um grande fã que me deu umas varinhas luminosas, em formato de estrelas e pirulitos, e uma foto-novela estranha que ele fez usando umas bonecas parecidas com a Barbie, que deveriam atuar como diferentes versões de mim. (risos)
CB – Como é a sua relação com Mauricio e Monica? Eles parecem gostar bastante de você.
Mauricio até me contou que você tentou falar algumas palavras em português enquanto conversava com a Monica.
Giorgia – Eu os estimo demais, eles são muito amigáveis e espertos. Tive o prazer de reencontrá-los durante o WCS 2008, enquanto estávamos todos na noite do karaokê organizada pelo Cosplay.com.
Acho que nós estávamos muito bêbados, já que eu tentei falar em espanhol e terminei falando em português! (risos)
CB – Deveríamos começar uma campanha para trazê-la para o Brasil? O que você conhece do nosso país?
Giorgia – Parece-me uma idéia muito boa. Eu nunca fui ao Brasil, mas sempre fui fascinada pelo carnaval, que é muito diferente do carnaval tradicional italiano (você talvez conheça o de Veneza).
Tenho um primo que foi adotado do Brasil, com o qual eu tenho laços muito fortes.
E, falando no Brasil, eu conheço e aprecio a natureza, a churrascaria, Paulo Coelho e, claro, eu ouço um monte dos problemas da seleção nacional de futebol.
CB – Para terminar a entrevista, gostaria de deixar uma mensagem aos seus fãs brasileiros?
Giorgia – Eu realmente gosto do jeito que vocês levam o cosplay. Eu vejo muitos excelentes, então continuem com o bom trabalho, que mostra a paixão, o esforço e a habilidade que vocês põem no cosplay.
Espero poder ir aí e visitar todos vocês cedo ou tarde.
Un besito.
Revisão por: Isabel Ferreira "Miyazawa"
Fotos: Arquivo pessoal da cosplayer |