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Filipe Dantas, 16 anos, estudante do primeiro ano do ensino médio, reside em Vila Mariana, São Paulo. Com seu primeiro cosplay, Duas Caras (Batman - O Cavaleiro das Trevas), já conseguiu uma vaga para a final do YCC 2009. Confira agora a entrevista que esse 'garoto de sorte' nos deu.
CB - Filipe, como foi seu primeiro contato com o mundo otaku? E com cosplay?
Filipe - Quando era pequeno, cresci ao lado do meu irmão mais velho, que sempre amou cultura japonesa. Desde cedo já expressava grande interesse em animes e mangás. Aprendi a ter esse contato - como a maioria das pessoas acredito - assistindo aos animes que passavam no Cartoon Network na época: Dragon Ball, Samurai X, Yu Yu Hakusho, etc. Na minha quarta série, em 2004, fui ao meu primeiro evento. Já tinha uma idéia de como era, porque meu irmão ia com meu primo e, quando mostrava as fotos de cosplays para mim, eu ficava empolgado querendo ser um deles. Ao ir, fiquei extremamente fascinado; isso ajudou para o meu interesse crescer mais ainda. Até a sexta série, quando resolvi ter aulas de desenhos e mangá, meu contato se tornou ainda mais forte: assisti a outros animes que se tornaram verdadeiras "modinhas" para mim, como Trigun. Durante o ano inteiro de 2007, quase não fui a eventos. Não manifestava interesse porque achava que só valia a pena quando se estava fazendo um cosplay. Comecei a ter inúmeras ideias para vários cosplays, porém acabava perdendo o interesse rapidamente. E a falta de contato também não ajudava. Mas, depois, quando conheci o cosplayer Jack, através da minha melhor amiga Alice, tive a oportunidade de mudar esta concepção. Foi quando houve a chance de fazer meu primeiro cosplay: Duas Caras.
Após tomar conhecimento de como a maquiagem poderia influenciar no desenvolvimento do perfil do personagem, assim como o figurino também, criei coragem e investi nessas áreas para que eles (Jack e Alice) pudessem me ajudar com os contatos. Não posso me considerar um "otaku ortodoxo". Sou uma mistura de otaku e nerd, porque me interesso por diversos assuntos e estilos que vão além do anime ou mangá.

CB - Duas Caras. Seu primeiro cosplay lhe rendeu uma vaga para a final de um dos campeonatos mais disputados do país. Qual a sensação ao passar por isso tudo?
Filipe - Eu me sinto realmente honrado. Minha apresentação que me rendeu esta vaga foi muito elogiada pelos melhores nomes que existem no mundo cosplay. Isso adicionou bastante confiança em meu espírito para enfrentar os desafios seguintes. Sinto-me nervoso por estar competindo com tanta gente boa, inclusive com meu amigo que me ajudou com meu cosplay de Duas Caras, Jack. Pessoalmente, pode parecer pessimismo da minha parte: eu não acredito que vou ganhar dessas pessoas, mas, como disse, darei meu melhor e criarei algo simbólico, algo que vá muito além de um significado individual referindo-se só a mim. Desejo criar algo que espante a todos e que me renda elogios, assim como na apresentação de Duas Caras. Me sinto nervoso, porém confiante, também sabendo que tenho meus amigos que podem me ajudar no que eu precisar.
CB - O que sentiu sendo o Duas Caras naquele fim de semana?
Filipe - É extremamente empolgante saber que eu fui um dos privilegiados a passar por essa transição para o mundo cosplay. Sempre fiz curso de teatro e sempre tive que personificar o personagem e atuar, mas agora vejo que, em se tratando de cosplays, é uma realidade diferente, porque quanto ao cosplay, você faz o que quer, representa da maneira como você quer e ainda vestido identicamente ou da forma mais parecida possível com o seu personagem favorito, tentando personificá-lo da maneira como ele é, da exata personalidade à exata entonação da voz. Tudo isso faz com que você sinta o personagem com mais facilidade, isso te empolga mais. Sabendo que você está pronto, vestido como ele, maquiado como seu personagem favorito, sua personificação acrescenta bem mais credibilidade ao público e a si mesmo. E a sensação que senti domingo ao estar vestido e maquiado como Duas Caras é algo que nunca sentira antes. É quase como um sonho de criança, se vestir e agir como seu personagem favorito e tornar este sonho realidade.
CB - Acha que, por ser novo no hobby, tem alguma desvantagem perante os demais competidores?
Filipe - Acredito que tenha certas desvantagens, sim, devido aos competidores mais experientes e mais famosos que estão entre os melhores, principalmente quando se leva em consideração termos de efeitos especiais, o aúdio que precisa ser gravado e a própria presença de palco, diante de um público tão diferente. Quando fazia teatro, sempre estive acustumado com um público bem mais diferente, trabalhando sob circunstâncias diferentes, como: palco, figurino, texto, entonação da voz no espaço e atmosfera ao entrar em cena. Ao fazer meu primeiro cosplay, sabia que isso ia mudar e precisava estar preparado, porém, tirando essas diferenças, acredito que o fato de eu ter realizado um curso de teatro já serve de grande vantagem, pois, pelo que eu acredito, o mais importante de tudo é, primeiramente, ser capaz de interpretar o personagem e adicionar credibilidade ao papel, tanto para si mesmo quanto para o público, mostrar que quem está lá em cima não é você, mas, sim, o seu personagem.
CB - Pode nos adiantar o que está preparando par a final?
Filipe - Como já havia dito, não tenho nenhuma obsessão compulsiva pelo prêmio ou coisa parecida. Agora que entrei no ramo e ainda estou conhecendo o pessoal, desejo dar o melhor de mim e mostrar a todos do que sou capaz. Desejo me divertir, conhecer novas pessoas, novos adversários e ter novas experiências. Por essa razão, vencer é o menos importante para mim no momento. A apresentação que estou elaborando terá um significado simbólico especial para mim. Não só para mim como também para todas as pessoas vivas, pois com elas desejo prestar uma homenagem e ao mesmo tempo passar uma mensagem muito importante a todos: mais que uma mensagem, uma lição, uma lição a nós mesmos, que todos os seres humanos teimam para aprender - o principal motivo que gera ódio por nós mesmos. Para isso, desejo prestar homenagem a um dos personagens mais carismáticos que marcaram o século XX: Charles Chaplin. Posso assegurar a todos que o foco da minha apresentação não será efeitos especiais ou muita estravagância, mas, sim, interpretação. Basearei o foco de minha concentração na interpretação do personagem que tanto estimo.

CB - Interpretar o Charles Chaplin é uma grande responsabilidade e algo quase único nesse tipo de concurso. Como se decidiu por esse cosplay?
Filipe - Para ser sincero, eu tive a decisão de levar em consideração essa possibilidade um dia antes do evento Anime Party, no domingo, no dia em que eu venci. Sempre tive grande fascínio por história, é minha matéria preferida, pretendo cursá-la e sempre fui apaixonado pela história contemporânea do homem, especialmente os séculos XVIII, XIX e XX. Sempre fui fascinado também pela própria conduta do ser humano, da forma como ele agia, como ele pensava, na guerra, na tragédia (sim, sou meio dramático e romancista às vezes *risos*) e em todas as formas de pensamento e manifestações artísticas ao longo de nossa história. Por essa razão, havia duas opções de apresentação. Uma delas seria a interpretação do Coronel Claus Von Stauffenberg, que fora um coronel alemão durante a Segunda Guerra Mundial, que tentou matar Hittler, em 20 de Julho de 1944. Desejava fazê-lo, pois, além de tudo, dentre todos os assuntos, a Segunda Guerra Mundial era o que me deixava mais empolgado. O lançamento recente do filme "Operação Valquíria", que retrata este atentado ao ditador, me ajudou a moldar o personagem em si. Porém, havia outra opção, que traria a interpretação de Charles Chaplin, em um de seus mais famosos filmes: O Grande Ditador. Além do valor e conteúdo histórico que pode ser muito aproveitado no filme, este traz mais do que isso, traz a marca de Chaplin. Charles Chaplin e Adolf Hitler nasceram na mesma semana. De alguma forma, acredita-se que o ator possuía algo imperativo com o ditador que o fazia se interessar pela oportunidade de deixar sua mensagem ao mundo através dele. E foi assim que surgiu a idéia. Esse filme foi um dos que tenho orgulho de dizer que me fizeram chorar ao me emocionar, pois a reflexão que ele estabelece à propria natureza humana eh algo incontestavelmente maravilhoso. Diante deste grande feito e deste imenso valor pessoal, escolhi esta opção, pois julguei mais significativa, mais simbólica; seu impacto seria maior, dependendo de minha interpretação. Assim, cresceu este desejo de interpretá-lo. Reconheço minha responsabilidade e a carga emocional que carrego comigo por este papel. Por essa razão, desejo deixar minha marca ao interpretá-lo, mostrando que isso
vai muito além do evento em si, vai muito além de uma simples competição e abrange um conteúdo bem mais amplo, referindo-se ao ser humano que conhecemos e aprendemos a temer após o doloroso e frio século XX.
CB - Em meio a seus futuros projetos cosplay, tem algum que envolva anime, mangá e games?
Filipe - Sim, há. Sempre adorei o estilo e acredito me identificar em parte com ele também. Como sempre quis fazer cosplays assim, pretendo futuramente fazer cosplays de animes, mangás ou games que me marcaram. Tenho um projeto já levado em consideração do anime Death Note, no qual faço o papel de Yagami Raito. Fora isso, nada certo. Mas sempre quis fazer cosplays dos jogos favoritos da minha infância, como Mortal Kombat, ou da minha maior paixão em termos de filmes: a série de filmes do James Bond.
CB - Agora que já faz parte do meio, quais suas ambições como cosplayer?
Filipe - Como nada é certo por enquanto, não posso afirmar nada com absoluta certeza. Tenho ideias e projetos de apresentações e roupas, mas acho que isso vai depender do quanto minha apresentação futura for boa, se vai dar certo ou não e, principalmente, se as pessoas gostarão. Apesar de a apresentação ser algo para mim, também faço questão que as pessoas que a assistam se divirtam e a adorem.

CB - De anônimo, você, no momento, se tornou um dos cosplayers mais falados. Como se sente em relação a isso?
Filipe - Sinto-me nervoso e ao mesmo tempo confiante. Cada elogio acrescentado à minha apresentação adicionou cada vez mais confiança em mim mesmo e ao que sou capaz. Se as pessoas esperam que eu vá fazer algo grande, então tenho que mostrar a elas o que elas esperam e mais além. Está sendo muito bom pelo fato de eu estar conhecendo muitas pessoas também, pessoas que me adoraram na apresentação e gostaram do que eu tenho a oferecer a elas. Com ajuda também do meu grande amigo que me ajudara antes, Jack, vou conhecendo novos contatos no ramo e aprendendo como as coisas funcionam. Me sinto nervoso em competir com tanta gente boa na final, mas a confiança transmitida para mim faz eu continuar.
CB - Assim como você, tem muitos outros jovens querendo entrar no mundo cosplay. Qual a dica que você pode dar a eles?
Filipe - Gostaria de falar que a confiança em si, no personagem e no que ele é, é fundamental para a interpretação dele, pois acredito que ela é a coisa mais fundamental a se dar importância, mais importante do que qualquer efeito especial ou cenário. Fazendo o estudo físico e psicológico do personagem, é possível estabelecer uma base da interpretação mais adequada. Quanto à sensação, creio que tudo vale a pena por ela. Não só de ganhar; falo da sensação de estar no palco sendo outra pessoa, sendo seu personagem, vivendo seu sonho de criança.
CB - Deixe um recado para todos os leitores que acompanharam sua entrevista e para os que torceram para você na final.
Filipe - Agradeço a todos, sem exceção. A confiança que vocês botam em mim é o que me faz continuar marchando rumo ao sucesso da minha apresentação. Agradeço também por me acompanharem nesse momento de transição tão significativo, tanto a quem já partilhou este sentimento, partilha ou ainda vai experimentar essa sensação muito boa. Agradeço aos cosplayers famosos que me elogiaram; a opinião deles vale ouro pra mim. Agradeço às pessoas que gostaram, agradeço aos funcionários da emprensa e do evento, agradeço a todos! A apresentação que fiz foi para vocês, pra vocês se divertirem e tomarem conhecimento de minha capacidade e até aonde sou capaz de ir. Agradeço aos meus amigos que me ajudaram e botaram confiança em mim, primeiramente: Cheng, Liih, Ketz, Mafê, meus pais e, claro, ao Jack! A todos, um grande abraço, adoro todos vocês!
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